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Sábado, Janeiro 08, 2005

BRANCO

O branco. Mais nada. Era só o que conseguia enxergar. Sentia que deveria se lembrar dos pais falecidos há muito tempo, dos empregos que arranjara na vida, pois aquele em que estava trabalhando era um saco e, os outros, mesmo que tenham sido ruins ou até piores, não deixavam de ser lembranças do que já vivera. Queria olhar para as próprias mãos frias, ou para os sapatos desgastados. Sentia vontade de coçar a barba suada, de enxugar o rosto molhado de lágrimas.

Não conseguia. Tentava, mas era impossível se desvencilhar da cor branca, ali, preenchendo sua visão. O branco parecia confundir seus pensamentos, como se quisesse fazê-lo impedir de racionar ao mesmo tempo que lhe ordenava considerar a importância daquele momento. Sabia que, a qualquer momento, tudo aquilo acabaria. E só conseguia ver o branco.

Nem escutou o som do gatilho. O corpo caiu para frente, com o impacto do tiro na nuca, e sua cabeça chocou-se contra a parede, branca, que agora estava suja de sangue. O outro, que apontava a arma, saiu com o dever cumprido. Não era a primeira vez que fazia aquilo. O corpo da vítima, com a cabeça um tanto desfigurada, estava sustentado entre a cadeira e a parede. Os olhos ficaram abertos e, até que alguém achasse o defunto, ele estaria, ali, ainda olhando para o branco.

Postado por BRUNO DO VALE NOGUEIRA, em 3:55 PM
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